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02/12/2008

Aby Warburg

Perfis  - Giancarlo Hannud

O mais velho de sete irmãos, o historiador da arte Aby Warburg nasceu no seio de uma família de prósperos banqueiros de Hamburgo, na Alemanha, em 1866. Aos treze anos, assim diz a história apócrifa, ele concedeu seu direito de herdar os negócios da família para o irmão Max, sob a condição de que este lhe comprasse todos os livros que precisasse para suas investigações ao longo da vida - uma transação de negócios da qual Max deve ter se arrependido, a julgar pela proporção que a biblioteca de Aby assumiria (quando da sua morte, ela contava com mais de 60 mil volumes). Warburg estudou em Bonn, Estrasburgo e Florença com figuras tão diversas quanto Carl Justi, Karl Lamprecht, Hermann Usener e Hubert Janitschek. A diversidade de sua formação – estudando com um historiador social, um filólogo e estudioso de religião comparada, e mais um sem número de historiadores da arte – pode, em parte, explicar não apenas sua aproximação interdisciplinar, mas também as idiossincrasias do método que ele concebeu para organizar sua biblioteca.

A tese de doutorado de Warburg, de 1893, “O Nascimento de Vênus e a Primavera de Sandro Botticelli”, propõe uma interpretação em múltiplas camadas dessas obras, e nos fornece as linhas gerais para o que seria o seu trabalho futuro. Ele começa convencionalmente demonstrando como Botticelli utilizava a poesia de Poliziano como guia para a concepção formal de ambas as pinturas, e como Poliziano, por sua vez, havia utilizado fontes romanas e helênicas para a composição daqueles poemas. Ele continua – e aqui o mais original – ilustrando como, na arte da Renascença, a representação do movimento invariavelmente oculta uma fonte antiga. Essas conclusões alimentam a idéia de persistência de um conceito de mimesis na representação visual renascentista e reafirmam como o conhecimento do passado do homem da Renascença refletia-se em suas conquistas artísticas, filosóficas e literárias.

Depois de sua graduação, ele se mudou para Florença para trabalhar com o que chamava de “inesgotável riqueza do arquivo florentino”. Olhando para além das grandes obras de arte, ele procurava chegar a um conhecimento mais completo sobre o homem renascentista; estudava não só as obras, mas também os homens que comissionavam esses trabalhos, aliando documentos pictóricos e literários, e, como um ex-aluno de Usener, tentando traçar a psicologia desses homens. Para Warburg, a Renascença – e nisso a pista veio dos escritos do historiador suíço Jakob Burckhardt – representou um período de profundas transições; nada menos que o desabrochar da modernidade e a emergência de uma percepção distinta de mundo. Seu trabalho ilustra a tentativa de formar um entendimento daquele momento histórico por meio não só da análise de suas imagens e de um entendimento de seu contexto sócio-cultural, mas essencialmente através da compreensão da natureza do processo de pensamento que formou essas imagens.

Em Florença, Warburg encontrou por acaso os designs de Bernardo Buontalenti para os Intermedi – espetáculos altamente sofisticados, que combinavam música, dança e teatro – representados em Florença em 1589. Warburg analisou cada um dos seis Intermedi em seu trabalho “Os Trajes Teatrais para os Intermedi de 1589”, concentrando-se principalmente no terceiro, no qual o deus do sol Apollo luta, e finalmente mata, a serpente Píton. É revelador que este seja o último trabalho concluído de Warburg antes de embarcar em sua jornada à América do Norte, entre 1895 e 1896, que renderia, vinte e sete anos depois, outro estudo que tratava de cobras. “Imagens da Região dos Índios Pueblo da América do Norte” ficou pronto em uma clínica psiquiátrica em Kreuzlingen em 1923, e deveria demonstrar ao analista de Warburg sua capacidade de levar uma vida independente após surtos de depressão e esquizofrenia que levaram à sua internação em 1921.

Os rituais ameríndios descritos no trabalho, e em particular a Dança Oraibi da Cobra, forneceram a Warburg exemplos vivos das forças que viu representadas nos Intermedi renascentistas. Porém, se no exemplo europeu a Píton deveria morrer para que o conflito fosse solucionado e Apollo pudesse triunfar sobre o espírito da terra representado pela Serpente, no exemplo Oraibi as cobras eram devolvidas à natureza como mensageiras da chuva, e uma série de rituais de purificação eram realizados pelos atores que participaram da Dança. O paralelo entre o uso simbólico da cobra pelos Oraibi e seu uso alegórico pelo Intermedio florentino forneceu a Warburg, como Matthew Rampley apontou, mais material para sua interpretação da Renascença como um período de transição de poderes mágicos para lógicos, ou seja, do símbolo para a alegoria.

Warburg voltou a Hamburgo em 1901, onde continuou suas investigações. Ele pesquisou as “rotas migratórias” da Renascença, que possibilitaram o contato de Albrecht Dürer com a Antiguidade Italiana. Ele se embrenhou na investigação de uma teoria astrológica da Renascença, produzindo uma quantidade considerável de trabalhos sobre o tema e sua relação com formas pictóricas. Também formulou trabalhos cativantes sobre selos postais como símbolos de poder e sobre a Antiguidade Italiana na era de Rembrandt, entre outros. Após nomear Fritz Saxl como seu assistente, em 1913, ele fundou a Kulturwissenschaftliche Bibliothek Warburg, nos anos 1920, que desempenharia um papel vital na vida intelectual de Hamburgo no começo do século XX.

Um dos aspectos mais interessantes de sua biblioteca, inicialmente privada, é seu método organizacional. Como Saxl observou acompanhando a mudança da biblioteca de Hamburgo para Londres, em 1933, fugindo do regime nazista, a quantidade de livros, sua organização e as constantes reorganizações impostas por Warburg eram “enlouquecedoras”. Não era organizada em ordem alfabética, ou mesmo por assuntos, mas de acordo com o que ele designava “afinidades eletivas”. Warburg e Saxl desenvolveram as três categorias propostas por Burckhardt para o estudo da história – Estado, Religião e Cultura – em quatro divisões principais para a biblioteca, sendo elas: Ação, Orientação, Palavra e Imagem. Isso sintetiza as preocupações de toda a vida de Warburg: a sobrevivência de estruturas antigas em instituições sociais; a transição do mágico para o filosófico, religioso e científico; a permanência de formas particulares na literatura e na linguagem e a permanência de imagens na arte.

O último projeto de Warburg, o Atlas Mnemosyne, ficou inacabado com sua morte, em 1929, e deveria encapsular todo o trabalho de sua vida. Consistia em 79 telas ilustrando, por meio de cerca de duas mil fotografias afixadas em painéis de madeira cobertos com feltro, relações entre imagens aparentemente discordantes. Destinava-se, como disse o próprio Warburg, a ser uma "história de fantasmas para adultos", oferecendo múltiplas leituras e possíveis paralelismos entre imagens provenientes de diversos períodos da história, e que serviram a propósitos conflitantes.

Visto em relação às ambições de Warburg, o trabalho de sua vida não foi um sucesso – ele permaneceu circunscrito a um pequeno círculo até recentemente. No entanto, se visto em relação aos discursos contemporâneos e à influência exercida por sua biblioteca e seu Instituto, seu trabalho teve sucesso incomparável, pois é através de uma compreensão de seus processos de pensamento que podemos nos envolver com preocupações filosóficas e psicológicas - e não as meramente estéticas, representadas por Bernard Berenson e a escola Morelliana, ou a escola histórica de Heinrich Wölfflin ou Erwin Panofsky - da história da arte do início do século XX, e as subseqüentes manipulações que esta disciplina sofreria após as investigações de Walter Benjamin e Theodor Adorno.

Giancarlo Hannud e historiador da arte e assistente curatorial da 28ª Bienal.

Texto originalmente publicado no jornal 28b #4

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