02/12/2008
Novo morador
Reportagens
- Isabela Andersen Barta
O artista Maurício Ianês entra no Pavilhão da Bienal sem roupas, comida ou água, aguardando que o público se manifeste e estabeleça uma relação.
Contexto
Durante doze dias, o Pavilhão da Bienal terá um morador em tempo integral: o artista Maurício Ianês, nascido em Santos há 35 anos. Nu, sem comida, bebida ou qualquer outro pertence, ele entrará no prédio dia 4 de novembro e ficará até dia 16 totalmente sob “A Bondade de Estranhos”, nome da performance pensada para a 28ª Bienal. A cada dia, Ianês escolherá um ponto diferente do prédio para ficar aguardando que o público se manifeste, doe algo, estabeleça qualquer relação. As noites ele também passará no pavilhão, para não interromper a performance. “Procurei pensar num trabalho absolutamente despido de qualquer artifício, que se afastasse do teatral e do espetacular, em que a única coisa que restasse fosse a minha presença e a relação crua com o público, de modo menos mediado possível, apesar de o ambiente da Bienal já criar um contexto representativo que media as relações”.
Político
“Eu sempre dependi da bondade de estranhos” é uma frase de Blanche DuBois, protagonista da peça “Um Bonde Chamado Desejo” – escrita pelo dramaturgo norte-americano Tennessee Williams—, que narra as relações conturbadas de uma mulher que se muda para a casa da irmã submissa e do genro violento. Embora o título da performance venha do texto, Ianês afirma que não há relação direta com a peça, mas com a citação recorrente da frase de modo irônico. “Ouço amigos e desconhecidos dizerem isso um pouco como piada, mas sempre pensei nisso seriamente, porque me interessa esse confronto com a face do Outro, como ele se dá, quais as saídas éticas, não morais, para que esse confronto se dê de forma franca, aberta e tolerante. A idéia de abraçar o Outro, descobrir novas formas de relação e novas linguagens a cada nova experiência com a diversidade me interessa como arte e como modo de vida”.
Extremo
Em sua primeira performance, “Apophisis 1” (apresentada em 1997 e novamente em 2003), Ianês ficou envolto em fita isolante preta durante as duas horas do pôr do sol ao anoitecer, parado no centro da sala de exposição. O título é uma palavra originada do grego apophanai, que significa “negar”. É quando se diz que não vai dizer algo e diz, como no uso da expressão “sem mencionar que...”, um processo de afirmação pela negação. Ianês investiga as linguagens (verbal, corporal, artística) e a capacidade que possuem de comunicar ou não uma mensagem. “Não quero, como artista, apresentar respostas, até porque não as tenho. Quero criar algo que possa levar a diferentes respostas, construídas colaborativamente com pessoas que carregam diferentes cargas sociais e culturais”. Em “Bondade de Estranhos”, a nudez não é apenas um fator de choque ou retirada da roupa por seus atributos sociais. “Uma roupa minha criaria uma interpretação, ganharia significados, mas quero justamente que a imagem final da ação seja construída com o que for doado. Não sei como essa relação se estabelecerá, não tenho expectativas concretas.”. Além da performance, Ianês apresentará um trabalho com adesivos no chão (no Plano de Leituras, no 3º andar), que delimitam áreas de diálogo, de monólogo e de silêncio. “Considero esse trabalho quase como uma ação onde eu não estou presente, mas chamo o público a participar, propondo essas três diferentes formas de discurso ou não-discurso”. Os adesivos dialogarão com o espaço, com a arquitetura e com outros trabalhos de artistas. Quando questionado se pretende documentar a reação das pessoas nesses espaços, o artista é enfático: “Uma ação é uma ação; me recuso a ver a documentação como arte em separado. O trabalho tem a sua vida no momento”.
O movimento do corpo
Algumas performances recentes nas bienais de São Paulo
24ª Bienal
A mineira Laura Lima executou a performance “Quadris”, em que dois homens foram unidos por uma única sunga e transitaram pelo espaço expositivo até a exaustão.
25ª Bienal
O norte-americano Spencer Tunick fotografou 1.200 voluntários nus no Parque do Ibirapuera para seu projeto “Nude Adrift”.
Na performance “VB50”, a italiana Vanessa Beecroft formou um exército estático de cinqüenta modelos vestindo apenas perucas e sapatos.
Flash histórico
O carioca Flávio de Carvalho é considerado o primeiro performer brasileiro, com sua “Experiência n° 2”, de 1931, em que caminhava de chapéu no sentido contrário a uma procissão de Corpus Christi no centro de São Paulo. Os fiéis se revoltaram e o artista foi obrigado a fugir para não ser linchado.
O português Antonio Manuel inscreveu-se como a própria obra no 19º Salão Nacional de Arte Moderna, em 1970, e foi barrado. Na inauguração do evento, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o artista apresentou-se nu, e intitulou a performance "O Corpo É a Obra". Ele foi proibido de participar dos salões oficiais por dois anos.
Texto originalmente publicado no jornal 28b #2
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