BIOGRAFIA
Ângela Ferreira nasceu em Maputo, Moçambique, 1958. Vive em Lisboa
2008 Hard Rain Show, Museu Coleção Berardo, Lisboa;
Front of House, Parasol Unit – Foundation For Contemporary Art, Londres
2007 52. Biennale di Venezia;
AfterLife, Michael Stevenson Gallery, Cidade do Cabo, África do Sul;
An Atlas of Events, Fundação Gulbenkian, Lisboa
2006 Ângela Remix, La Chocolataria, Santiago de Compostela, Espanha;
Re(volver), Plataforma Revólver, Lisboa
Bibliografia Selecionada FERREIRA, Ângela,
Em Sítio Algum/ No Place at All, Lisboa, Museu do Chiado – MNAC/ IPM, 2003;
Maison Tropicale, 52. Biennale di Venezia; PERRYER, Sophie,
10 Years 100 Artists – Art in a Democratic South Africa, Cidade do Cabo, Bell-Roberts Publishing, Struik, 2005.
ENTREVISTA
Regina Melim: Poderíamos começar falando sobre o seu projeto para a 28ª Bienal de São Paulo?
Ângela Ferreira: O meu trabalho para a 28ª Bienal faz parte do longo projeto
For Mozambique [Para Moçambique], sendo que o seu título completo é
For Mozambique (Model #3 for Propaganda Stand, Screen and Loudspeaker Platform Celebrating a Post-Indepen-dence Utopia) [Para Moçambique (módulo número 3 para quiosque de propaganda, tela, plataforma de caixas de som celebrando uma utopia pós-independência)] e faz parte de um projeto de experimentação e investigação que é dedicado a Moçambique e ao período do pós-independência. Ele constitui a terceira versão de uma mesma idéia que vai se desenvolvendo no tempo e no espaço. Essa proposta de desenvolver variadas versões a partir de uma investigação é uma experiência nova no contexto da minha prática artística. Porque o meu trabalho é investigativo, e por vezes a investigação é rica e promete vários possíveis caminhos de trabalho, há muito sinto-me insatisfeita com a idéia da unicidade do produto resultante. O desdobramento do mesmo ponto de partida por várias experiências instalacionais, que vão se completando, está sendo uma experimentação interessante. Como já disse, esta é a terceira versão do projeto, sendo que a primeira integrou a exposição
Hard Rain Show [Exposição chuva pesada], no Museu Berardo, em Lisboa, e a segunda a exposição,
Front of House [Frente de casa], na Parasol Unit, em Londres. Eu não as vejo como um série, mas sim como um projeto só, e por isso o título
model #1, #2 ou
#3, que corresponde à idéia de experimentações em torno de funcionalidades comunicacionais.
For Mozambique foca dois momentos da história de grande otimismo social e político: o primeiro é o período que se seguiu à Revolução Russa da década de 1920, que é perceptível pela estrutura física do trabalho; e o segundo se refere à euforia que se sentiu em torno da independência de Moçambique em meados dos anos 1970, e que se experiencia através dos dois filmes que integram o trabalho.
A estrutura/escultura (de madeira) desta e de todas as versões se baseia em desenhos de 1922 para quiosques “agitprop” de autoria do artista letão-russo Gustav Klucis, que foi um expoente importante do construtivismo russo do fim da década de 1910 e do início da década de 1920. Os quiosques eram estruturas multifuncionais muito utilizados pelo Partido Comunista Russo dos anos 1920 para influenciar e mobilizar a opinião pública durante o período volátil que se seguiu à Revolução Russa. Muitas vezes, nômades e desmontáveis, os quiosques temporários eram posicionados nas ruas durante eventos importantes e ofereciam várias funções, incluindo stands de livros, megafones e plataformas para oradores, lugares para cartazes, telas para projeção de filmes. Eu utilizo as minhas estruturas/esculturas “agitprop” para apresentar dois filmes que capturam o espírito celebratório da pós-independência de Moçambique (1975-77). O pequeno filme
Makwayela, dirigido pelo etnógrafo e cineasta francês Jean Rouch e Jacques d’ Arthuys, mostra trabalhadores de uma fábrica em Moçambique exprimindo e articulando a sua independência do poder colonial por meio da canção e da dança; por outro lado, a letra da canção de Bob Dylan descreve uma atmosfera hedonística em Moçambique, onde ele se revê “among the people living free” [em meio ao povo livre].
A estrutura/escultura passa a ser uma manifestação da atmosfera de celebração utópica no pós-independência em Moçambique, e também um monumento aos sentimentos de esperança pelo futuro do país naquele tempo, antes das mudanças e dos deslizes que dirigiram o país ao marxismo fundamental e à guerra civil que ocuparam Moçambique nas duas décadas que se seguiram. Há ainda que notar o paralelismo entre os dois momentos da história: euforia utópica havia inspirado Klucis durante o estado de graça político e artístico que integrou o construtivismo russo e que acabou como sistema autoritário e fundamental marxista.
A mim interessava voltar a olhar para essa esperança, a esse momento de utopia política, para entender melhor o que se passou e procurar imbuir a contemporaneidade de esperança.
Regina Melim é professora e pesquisadora na Universidade do Estado de Santa Catarina – Florianópolis, e vive em Florianópolis.