BIOGRAFIA
Carla Zaccagnini nasceu em Buenos Aires, Argentina, 1973. Vive em São Paulo
2008 No. It is oposition, Art Gallery of York University, Toronto, Canadá;
Bifurcações e Encruzilhadas, Galeria Vermelho, São Paulo;
Selection of Award-Winning Artist at Arteamericas, Cisneros Fontanals Art Foundation – CIFO, Miami, EUA
2007 Museu das Vistas, Ersta Konsthall, Nationalmuseum, Estocolmo, Suécia;
ICI ET LÀ-BAS, Quartier de Villaroy – Guyancourt, Paris
2006 Cité Action, Assenede, Bélgica
Bibliografia Selecionada ALBUQUERQUE, Fernanda, “Carla Zaccagnini” IN:
Contemporary Annual 2006, Londres, 2006; BASBAUM, Ricardo, “Anos 2000-2002” IN:
Caminhos do Contemporâneo, Rio de Janeiro, Paço Imperial, 2002; PEDROSA, Adriano,
Cream 3, Londres, Phaidon, 2003.
ENTREVISTA
Thais Rivitti: Como foi a concepção desse trabalho?
Carla Zaccagnini: A idéia desse trabalho deriva de um convite para participar de uma exposição sobre design e política curada pela Kiki Mazzuchelli. No fim, eu acabei fazendo um outro trabalho, em colaboração com o Nicolás Robbio, e aquele projeto – um balanço com quatro assentos que só pudesse ser usado quando todos os lugares fossem ocupados – ainda não saiu do papel. Mas foi pensando no mecanismo para esse brinquedo que o Alexandre Canônico sugeriu um balanço com apenas um banco, que acomodasse várias pessoas e só funcionasse a partir de um certo peso, e tivesse de ser usado por, digamos, quatro pessoas. Nessa conversa, há cerca de um ano, tivemos a idéia – que parecia irrealizável – de construir um parquinho com brinquedos que destravassem um ao outro formando um sistema mecânico único, de inusitadas causas e efeitos. Não me lembro bem quando o chafariz entrou em cena, mas ele era o
grand finale daquela cadeia de ações: desenho constante, mas transparente e impermanente, épico e inócuo ao mesmo tempo. Foi nas conversas com o Paulo Masson, já na fase de execução do projeto, que deixamos de lado a idéia dos brinquedos que se destravavam sucessivamente e partimos para esse sistema hidráulico posto em movimento pelo uso dos brinquedos.
Thais Rivitti: Conspiração [nome provisório], além contar com toda uma equipe para ser construído, necessita de um pacto com o público para acontecer plenamente. Qual o papel dos “outros” em seus trabalhos?
Carla Zaccagnini: A co-autoria é uma estratégia quase permanente em meu trabalho. Por um lado, é uma maneira de garantir uma distância entre o que eu imagino inicialmente e a realização final do trabalho, de assumir a falta de controle do artista e fazer com que o trabalho me surpreenda. Por outro lado, é uma estratégia que dirige uma pergunta em relação à definição de arte e à função do artista. Ou seja, se não podemos dizer que o artista é aquele que cria uma imagem ou que possui o domínio técnico que define a concretização de uma idéia e sua visualidade, e ainda assim o que ele produz é arte. Onde está o centro desse terreno irregular e flexível que circunscreve a definição de arte e que cada novo trabalho redesenha? Não sei se o pacto com o público que a sua pergunta assinala se relaciona conceitualmente com a questão da autoria. Acho que diz respeito a uma questão diferente, igualmente relevante na história da arte: a recepção. Mas, certamente, a minha posição com relação a esses dois aspectos do trabalho de arte tem algo em comum, que é a responsabilidade compartilhada.
Thais Rivitti: Num momento em que se discute a espetacularização das exposições e que a 28ª Bienal de São Paulo busca se repensar e traçar novos rumos, o seu trabalho – um playground com brinquedos – adquire certo ar irônico. De certa maneira, é como se o trabalho zombasse do discurso da espetacularização ao apresentar uma idéia de diversão comum, trivial, distante de espetáculos pirotécnicos.
Carla Zaccagnini: Sou uma pessoa irônica, mas não cínica nem cética. Talvez o playground tenha certa ironia, mas, acima disso, há uma confiança na possibilidade de tornar os conteúdos compreensíveis por caminhos que não sejam necessariamente intelectuais ou reflexivos. Claro que você pode trilhar a história desse trabalho recorrendo ao
The Large Glass [Grande vidro] de Duchamp, à estética relacional, à noção de participação formulada no neoconcretismo brasileiro. Mas há outras leituras do trabalho que têm a ver, por exemplo, com o papel do indivíduo num sistema de relações interdependentes, e que prescindem totalmente de qualquer entendimento das discussões artísticas. Faz tempo que insisto na idéia de que o meu trabalho não é feito para especialistas, mas para pessoas curiosas. Interessa-me o deslocamento do trabalho de dentro do Pavilhão das Indústrias* para a área aberta do Parque do Ibirapuera.
* Nome original do pavilhão que abriga a Bienal de São Paulo.
Thais Rivitti é crítica de arte e pesquisadora, vive em São Paulo.