BIOGRAFIA
Carlos Navarrete nasceu em Santiago, Chile, 1968. Vive em Santiago
2008 Momento, Florencia Loewenthal Gallery, Santiago
2007 The Ineffable Object, Cleveland State University Art Gallery, EUA
2006 Travels, mobility & gardens, (City-Scan), Stedelijk Museum voor Aktuele Kunst – SMAK, Gent, Bélgica
2005 Transformer, Centro Cultural Matucana 100, Santiago
2004 Produciendo Realidad, Arte e resistenza latinoamericana, Prometeo Associazione per l’Arte Contemporanea, Lucca, Itália
2003 Farenheit around the Garden, Koninklijk Museum voor Schone Kunsten NICC, Free Space, Antuérpia, Bélgica
Bibliografia Selecionada FONSECA, Mario, “La ubicuidad de la memoria”,
El Mercurio, Revista El Sábado, # 494, 8 de março, 2008, pp. 6; LITZ, Christian, “Der Große treck.”,
Monopol Magazine, v.8, agosto, 2007, pp. 76-85; NAVARRETE, Carlos,
Winter Garden/ Jardín de Invierno (cat.), Stuttgart, Akademie Schloß Solitude, 2006.
ENTREVISTA
Santiago García Navarro: O que é o Arquivo Pessoal?
Carlos Navarrete: É um conjunto de desenhos, fotografias, diagramas, cartas e objetos que trazem reflexões sobre a cidade de São Paulo a partir da minha própria experiência, tanto como artista quanto como público visitante da Bienal de São Paulo. Essa forma de produzir uma obra, através da coleção de experiências, me permite visualizar as relações que foram sendo estabelecidas em minhas viagens a esta urbe desde 1985. A obra trata do cruzamento de aspectos pessoais com coisas mais universais, próprias da viagem e de seus efeitos em artistas contemporâneos e nas pessoas em geral. Tudo começou em 1975, quando o irmão de meu pai decidiu se instalar em São Paulo com sua família, em busca de melhores condições econômicas de vida. Desde então, tenho sido uma testemunha privilegiada da vida e do desenvolvimento dos meus primos e tios nesta cidade. Portanto, o
Archivo Personal tem uma extensão ativa, que terá algo de muito especial para mim e para meus tios, sem ser uma performance. Durante a mostra, realizarei uma série de visitas guiadas à 28ª Bienal em espanhol, para o público em geral. Isso porque tenho realizado visitas privadas para meus tios e primos nas Bienais desde 1991. Eles serão convidados como espectadores para a primeira dessas visitas e estarão presentes na obra propriamente dita, na exposição da correspondência trocada pela família dividida entre as duas cidades.
Santiago García Navarro: Você pensa em introduzir suas ações efêmeras com os azulejos ou o dominó malevicheanos nesses trabalhos?
Carlos Navarrete: Esse era um dos grandes dilemas, mas finalmente decidi não introduzi-los. Isso porque na série de desenhos sobre São Paulo, que fala de minhas andanças de ônibus pela cidade, está implícita a idéia de me retratar ou de me reconhecer na urbe por intermédio da viagem, pelas marcas da paisagem. Assim sendo, cada um dos desenhos recebe o título de um dos trajetos de ônibus que eu realizei, da casa de meus tios em São Bernardo do Campo até algum outro ponto da urbe. No registro fotográfico, os recortes que os objetos emblemáticos denotam estão emoldurados na idéia de construir um desenho que mostre São Paulo e os trajetos que fiz de ônibus. Porém, enquanto preparava o material para essas peças, descobri vários caminhões basculantes de tamanho descomunal. Neles encontrei restos de azulejos e cerâmica, com os quais decidi fazer uma peça chamada
11 noches en SP [11 noites em SP] e que, a partir dos fragmentos devidamente ordenados, dá testemunho do tempo investido em realizar o projeto em São Paulo. Essa coletânea é o coração do
Archivo Personal, já que tudo nasce dela e converge para ela.
Santiago García Navarro: Como você definiria a sua maneira de fazer uma obra viajando?
Carlos Navarrete: Minha obra é absolutamente nômade. Sempre penso na palavra “mobilidade” para expor minhas idéias. Mobilidade é o reflexo e o efeito de estar sempre montando a obra enquanto dura a viagem. A peça vai sendo construída à medida que sinto os efeitos da viagem em mim e no meu modo de observar o lugar em que estou preparando o trabalho. O questionamento principal é o seguinte: como as viagens influenciam minha obra e como posso transformar esse envolvimento em um olhar criativo sobre o mundo que observo? Trabalho com a idéia da extensão territorial do meu país, o Chile. Ou seja, essa imagem de uma faixa de terra comprida e estreita me serve de metáfora para realizar viagens longas e intensas, que não têm necessidade de uma chegada definitiva, mas sim de um constante ir-e-vir. Por isso, mais do que lugares visitados, foram possibilidades de guardar momentos, fragmentos de vivências em cidades tão distantes como Tóquio, Nova York, Dublin, Veneza, Valdivia, Buenos Aires, etc. É preciso fazer com que o mundo seja visto a partir do território da arte, através dessas pequenas expedições.
Santiago García Navarro é escritor, tradutor e crítico de arte. Vive em Buenos Aires.