BIOGRAFIA
Carsten Höller nasceu em Bruxelas, Bélgica, 1961. Vive em Estocolmo
2008 Carrousel, Kunsthaus Bregenz, Áustria;
Thyssen-Bornemisza Art Contemporary: Collection as Aleph, Kunsthaus, Graz, Áustria
2007 Double Shadow, Air de Paris;
I am Future Melancholic, Tate Modern, Londres & Go Gallery, Milão
2006 Unilever Series: Carsten Höller, Turbine Hall, Tate Modern, Londres;
Into Me/ Out of Me, Kunst-Werke, Berlim
Bibliografia Selecionada CORBETTA, Caroline & BONAMI, Francesco (ed.),
Carsten Höller, Milão, Electa, 2007;
One, Some, Many 3 Shows by Carsten Höller, Ottawa, Musée des Beaux-Arts du Canada, 2007;
Carsten Höller Test Site, Londres, Tate Publishing, 2006.
ENTREVISTA
Ana Paula Cohen: O escorregador é um projeto que você tem desenvolvido desde 1998, em diferentes contextos arquitetônicos e de exposição. Como você espera que essa nova versão, e sua relação com o pavilhão da Bienal e com o público brasileiro, possa gerar uma nova dinâmica para sua pesquisa nesse assunto?
Carsten Höller: Devo dizer que não faço pesquisa, mas ofereço a possibilidade para que cada um faça uma pesquisa consigo mesmo – e acho que esta é uma diferença importante. Ao mesmo tempo, faço perguntas bem objetivas: “Por que não usamos escorregadores como meio de transporte?” “Por que eles só são vistos em parques de diversão e em playgrounds e nunca fazem parte da arquitetura ‘séria’?” Os escorregadores são rápidos, seguros e relativamente baratos, mas eles provocam algo nos usuários que é específico do escorregador, e foi a isso que me referi quando disse que se trata de uma pesquisa que cada um pode fazer em si mesmo: eles proporcionam um momento de loucura, “um pânico voluptuoso sobre uma mente lúcida”, nas palavras de Roger Caillois, ao se referir à vertigem.
Ana Paula Cohen: A idéia de “oferecer a possibilidade para que cada um faça uma pesquisa consigo mesmo” é fundamental para o conceito da 28ª Bienal de São Paulo, que pretende envolver o público em uma rede de produção de conhecimento e de pesquisa que se constitui no processo de um evento como este – abrindo espaço para formas mais ativas de se relacionar com uma exposição de arte, por meio de estratégias em geral propostas pelos próprios artistas. Nesse sentido, você poderia falar sobre a convergência das noções de “função” e “diversão” em um projeto de arte como o seu?
Carsten Höller: Já falei sobre a função: os escorregadores são
apenas um bom meio de transporte de um ponto mais alto para outro mais baixo. Mas diversão é uma coisa mais complicada, mais esquisita, mais assustadora, mais parasitária, incompreensível por natureza, como um alienígena vivendo dentro de mim, forçando-me a fazer uma coisa e não outra, dependendo do nível de diversão que posso esperar da minha decisão, se é que a minha decisão é consciente. A diversão é uma moeda interna cuja troca se dá entre um “eu” que é mais um transportador do corpo e outro “eu” autônomo, de espírito livre e difícil de atingir. A diversão faz com que o meu “eu consciente” faça coisas que realmente não se encaixam no conceito de “eu consciente”. Muito embora os dois sejam inseparáveis, minha experiência tem demonstrado que o escorregador é uma boa ferramenta para finalmente poder encarar a diversão.
Ana Paula Cohen: Já conversamos sobre um sistema de arte contemporânea que recentemente se tornou comparável a alguns eventos de massa – como grandes festivais de música ou relacionados à indústria de filmes de entretenimento. Considerando que seu trabalho faz parte desse sistema, como você acredita que podemos mudar essa lógica de consumo estando dentro dela?
Carsten Höller: Não dá, já é tarde demais… Contudo, você tem razão ao dizer que os escorregadores e outras obras “associadas à diversão” que já criei (como é o caso dos
Amusement Park Rides) [Atrações no parque de diversões] propõem uma reflexão sobre o caráter de massificação dos eventos da arte contemporânea hoje em dia. Ou seja, só para dar um exemplo, não há nenhuma revista de bordo em que não se leia uma matéria sobre um artista, um museu, ou algo assim. Isso se tornou lugar-comum, o que certamente não acontecia dez ou quinze anos atrás. Acho que não devemos lamentar o fato em si, mas acredito que chegou o momento de retirar as idéias artísticas de um contexto em que elas funcionam mais para a indústria do turismo, inclusive o turismo de atitudes, e reposicioná-las em uma situação mais próxima da vida cotidiana, onde possam desenvolver todo seu potencial novamente, por não serem facilmente identificadas como tais. Em outras palavras, é preciso aplicar tais idéias à vida, ao invés de extraílas, para não transformá-las em rituais de massa, impotentes, vazios.
Ana Paula Cohen é curadora independente, editora e crítica de arte. Atualmente, é curadora da 28a Bienal de São Paulo. Vive em São Paulo.