BIOGRAFIA
Dora Longo Bahia nasceu em São Paulo, Brasil, 1961. Vive em São Paulo
2006 AcordaLice, Galeria Luisa Strina, São Paulo;
Escalpo carioca e outras canções, Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro
2005 in_Site05, Tijuana, México & San Diego, EUA
2003 Marcelo do Campo 1969 –1975 , Centro Universitário MariAntonia, São Paulo
2001 Sulsouth – Voyages Into Mutant Technologies, Instituto Camões – Centro Cultural Português, Maputo, Moçambique
1997 6ta Bienal de la Habana
Bibliografia Selecionada BAHIA, Dora Longo,
Escalpo Carioca e outras canções, Rio de Janeiro, Centro Cultural Banco do Brasil, 2006; BAHIA, Dora Longo,
Marcelo do Campo 1969-1975, São Paulo, Itaú Cultural, 2006.
ENTREVISTA
José Roca: Você poderia falar de seu projeto de rádio para a 28ª Bienal de São Paulo?
Dora Longo Bahia: Quero fazer sete programas de rádio de 30 minutos, veiculados, se possível, na freqüência am, com “entrevistas musicais” feitas por minha banda OsMacaco com alguns dos participantes da Bienal. A Rádio Macaco seria uma sessão de improvisos, experimentações, desvios, como acontece nos bastidores de um ensaio de rock. Fizemos a proposta para a rádio Eldorado AM, que é uma das rádios de maior alcance do Brasil, mas a diretora artística refutou a idéia porque, segundo ela, tanto a Eldorado AM quanto a FM “falam para um público adulto classes A e B”. Fiquei chateada por ter sido chamada de retardada, mas fiquei desapontada, principalmente, com a posição preconceituosa e elitista da diretora artística da Eldorado. Como, hoje em dia, num país como o Brasil, uma grande rádio não tem vergonha de falar, exclusivamente, para as classes A e B?
José Roca: Principalmente o rádio, que é, pelo menos no que diz respeito à sua difusão, um meio mais democrático e de maior penetração potencial. O interessante do rádio é que ele obriga a formar uma imagem mental, a imaginar, no sentido etimológico. Em seu trabalho pictórico, você se apropria de imagens ancoradas na memória coletiva, ou seja, presentes mesmo que de forma imprecisa, e embora você as materialize, mantém um grau de indeterminação e ambigüidade. A intenção é fazer referência ao processo que conduz a seus “escalpos”?
Dora Longo Bahia: Os escalpos são uma série de pinturas “sem carne”. Arranco a película de tinta de seu suporte original e aplico-a sobre um outro lugar: uma parede, uma página de jornal, um tapume de madeira, uma placa de cimento, um pedaço de papelão ou, no caso da Bienal, o chão. Escolho imagens paradigmáticas de lugares controversos, tiradas de cartões-postais, jornais ou livros, que são amassadas e mutiladas ao ser arrancadas e reaplicadas sobre outro corpo. Quero que a pintura revele a perversidade da fascinação pela imagem, pela aparência, pelo espetáculo.
José Roca: O que aconteceu com a Eldorado é indicativo de que efetivamente há claras estratificações sociais, inclusive no meio da cultura, que se supõe ser mais aberto e tolerante. A arte tem alguma possibilidade de romper, mesmo que minimamente, essa situação ou o máximo que consegue é sinalizar? Qual é a margem de ação política da arte?
Dora Longo Bahia: É. Infelizmente, o mundo está cheio de preconceitos e ignorância. Não sei se a arte pode acabar com essa situação, já que ela sempre se relacionou amigavelmente com os sistemas de poder… Mas acredito que toda arte é uma ação política (política definida como a arte de lidar com a cidade, da palavra grega
politikê, por sua vez composta de
pólis, cidade, e
tékhné, arte, agir sobre a sociedade, questionar paradigmas, sinalizar novas formas de organização, preconizar mudanças). Considero a arte política mesmo quando o artista que a produz reivindica uma posição apolítica, já que sua obra é difundida pelo espaço público, interferindo nas ações, no comportamento e nas crenças da comunidade, e conectando memória e porvir, sujeito e objeto, situação e existência. Acho que, da mesma forma que um governante, um cientista, um professor ou um religioso, o artista é responsável tanto por sua obra quanto por suas implicações públicas, e deve estar ciente de suas articulações com as instituições de poder, sejam elas o Estado, a mídia ou o poder econômico privado, representado pelos colecionadores e investidores. Um artista que reivindica uma posição de silêncio político é, no mínimo, ingênuo, para não dizer, no caso de ignorância voluntária, perigoso, ou mesmo, criminoso.
José Roca: Você mencionou estar interessada no erro. Poderia complementar?
Dora Longo Bahia: O erro é como uma fenda. Abre novas possibilidades, novas maneiras de olhar.
José Roca é curador colombiano, Diretor Artístico da Philagrafika 2010. Vive e trabalha em Bogotá e Filadélfia.