ENTREVISTA
Katia Calsavara: Qual é a temática abordada em Solo…? Como foi o processo de criação dessa coreografia que será apresentada em São Paulo?
Israel Galván: A temática tem mais a ver com o meu processo de criação do que com qualquer outro elemento externo. De fato, surgiu de uma forma natural, ao preparar um de meus últimos espetáculos,
Tábula rasa, no qual há uma parte importante que executo sem acompanhamento musical. Nesse momento, surgiu a idéia de converter essa peça em um trabalho independente, no qual enfrento a mim mesmo.
Katia Calsavara: Você costuma utilizar a improvisação em Solo…. Que tipo de linguagem busca manter em termos de movimentação e gestual?
Israel Galván: Essa coreografia me permite explorar mais profundamente meus próprios movimentos e comprovar como funciona uma série de elementos dentro deles. A linguagem coreográfica de
Solo… tem muito a ver com a depuração do movimento, a que todos nós
bailadores aspiramos. Mas, ao mesmo tempo, está muito presente a improvisação.
Katia Calsavara: Como se sente como um dos artistas flamencos mais aclamados da atualidade?
Israel Galván: O que posso dizer é que, quando danço ou trabalho em uma nova coreografia, não penso que estou fazendo alguma coisa que vá mudar o baile flamenco. Minhas formas de dançar são o resultado de minhas necessidades de expressão e da linguagem que necessito para poder expressar o que sinto. Não penso se essas formas irão transcender ou não.
Katia Calsavara: Como é a apresentação de Solo… do ponto de vista da utilização do espaço?
Israel Galván: Em
Solo…, posso me dar ao luxo de brincar com o espaço, não tenho de estar sujeito às “imposições” do palco tradicional. Gosto da sensação de que o espaço possa se converter em um elemento a mais do espetáculo ou que possa sugerir a introdução de novos elementos.
Katia Calsavara: Público e crítica sempre esperam algo surpreendente de seus trabalhos. Como lida com essa expectativa?
Israel Galván: A verdade é que é um lastro que pesa bastante, mas com o tempo, tenho aprendido a desfrutar mais o meu trabalho e o processo. De qualquer maneira, meu processo criativo é bastante doloroso, creio que tem mais a ver com o meu próprio caráter e também com a insegurança que todos os artistas têm quando iniciam uma nova experiência.
Katia Calsavara: Ao introduzir alguns temas polêmicos em suas coreografias, como o das touradas em Arena, você acredita que seu trabalho tem uma função social?
Israel Galván: Em
Arena não há um juízo sobre se está certo ou não que existam as touradas. Não se trata disso. É um acontecimento que é parte de nossa cultura e que historicamente está muito ligado ao flamenco. Eu me dispus a esse tema sob óticas que têm mais a ver com a arte do que com qualquer outro tipo de valor. Não acredito que
Arena tenha tido alguma influência na opinião de alguém. Estou certo de que, depois de ver o espetáculo, quem não gostava dos touros continuará sem gostar, e quem gostava continuará gostando.
Katia Calsavara: Em sua opinião, qual é a importância dos muitos prêmios que já ganhou em reconhecimento por seu trabalho?
Israel Galván: Os prêmios sempre são reconfortantes. Ajudam a seguir em frente e dão autoconfiança. Você pensa: “Bem, se estão me dando esse prêmio é porque não estou muito equivocado”. Ao mesmo tempo, te dão mais responsabilidade, porque precisa seguir demonstrando que você, e não outro, merece esse prêmio.
Katia Calsavara: É a primeira vez que vem ao Brasil. Quais são suas expectativas?
Israel Galván: Gostaria de ter mais tempo para conhecer o país. Seria bom, no futuro, fazer uma turnê pelos teatros do Brasil, seria uma boa forma de conhecimento mútuo. O Brasil é um país com uma tradição musical importantíssima e isso o torna muito atrativo para qualquer um que se dedique a isso.
Katia Calsavara é jornalista, bailarina e vive em São Paulo.