BIOGRAFIA
João Modé nasceu em Resende, Brasil, 1961. Vive no Rio de Janeiro
2007 A cabeça, A Gentil Carioca, Rio de Janeiro;
Musica para los Animales y las Cosas, Casa Tres Patios, Medellín, Colômbia;
Contraditório - Panorama da Arte Brasileira, Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM-SP;
Futuro do Presente, Itaú Cultural, São Paulo
2006 Stopover, Kunsthalle Fribourg, Suíça
2003 Rede, Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – MAMRIO
Bibliografia Selecionada BRUM, José Thomaz,
Rede, Rio de Janeiro, Sesc-RJ, 2003; ZACCAGNINI, Carla, “João Modé/ Espacio Agora”,
ArtNexus, nº 47, fevereiro, 2003; BASBAUM, Ricardo, “De Fuera Hacia Adentro/ De Dentro Hacia Afuera”,
Revista Lapiz, nº 134/ 135, julho/ setembro, 1997.
ENTREVISTA
Regina Melim: Você poderia falar um pouco sobre o projeto que você está desenvolvendo para a 28ª Bienal de São Paulo?
João Modé: Normalmente, é muito difícil falar com tanta antecedência do que vou fazer. Meus projetos acontecem a partir de uma vivência com o lugar e com a experiência proposta. A Bienal tem sido uma experiência bastante nova, já que tudo tem de ser decidido com grande antecedência. Meu trabalho é muito processual e geralmente vou tomando decisões durante o período em que estou trabalhando e, algumas vezes, mesmo depois do dia da abertura do evento, continuo trabalhando. O trabalho tem um ritmo interno.
O que posso afirmar por ora é que estamos trabalhando com cinco pequenos projetos que ficarão agrupados numa área do terceiro andar. São intervenções muito pequenas, sutis e discretas, quase invisíveis, se levarmos em consideração as dimensões do prédio. Alguns fazem referência à transitoriedade das coisas, à passagem do tempo; outros, à relação da obra com o espaço.
Regina Melim: Quando comecei a sua entrevista, cheguei a pensar sobre situações dessa natureza, de trabalhos que vão se “decidindo” durante a exposição. Um coeficiente performativo está sempre presente na ordem construtiva dos trabalhos, cujo tempo anterior apresenta apenas indícios, esquemas de uma matriz geradora de procedimentos que são imprevisíveis. Você fala de intervenções muito pequenas, tão sutis e discretas que na escala do prédio da Bienal são quase invisíveis. Numa proposição assim, como você pensa a relação do público com o seu trabalho?
João Modé: Minha proposta vai, de alguma forma, na contramão do que se espera de um trabalho para uma grande mostra. É interessante você tocar nessa questão da relação com o público. Não penso nisso de uma forma pragmática. Cada trabalho acontece dentro de uma dinâmica interna que, de alguma maneira, determina essa relação. Alguns projetos que proponho são, por natureza, para um grande público –
Rede e Constelações contam com a participação do público para existirem; outros são mais intimistas, exigem um tempo, uma aproximação e uma atenção para que sejam apreendidos. O que o trabalho propõe é uma experiência “temporal”. Talvez alguém que vá à Bienal querendo ver tudo rapidamente, nem veja. Não importa. Em um dos projetos uma flor desfalece em frente a um objeto. Cada pessoa deverá ver a flor em um estado desse desfalecimento. Tudo acontece num tempo lento. É preciso que o observador entre no ritmo do trabalho. Ele trata exatamente da impossibilidade de apreender o tempo e, de uma forma oposta, do tempo acelerado que nós vivemos tentando dar conta em meio à avalanche de informações.
Regina Melim: Você fala que, de alguma forma, a sua proposta vai na contramão do que se espera de um trabalho para uma grande mostra. No entanto, essa “invisibilidade” das coisas que estão no nosso entorno por conta do tempo acelerado e da avalanche de informações que seu trabalho propõe não estaria operando próximo dessa perspectiva de pensar a própria Bienal dentro de outro formato? Ou seja, de outros modos de se relacionar com as obras, com as informações e com os espaços expositivos?
João Modé: Acredito que sim. O campo de atuação da minha obra é bastante vasto. Acho que, de alguma maneira, ela busca outras formas de contato. Tem um jogo de articulações internas que acontece nas relações entre os trabalhos, entre os trabalhos e os espaços onde estes estão (e aí não falo apenas do grupo de trabalhos que estou propondo), que tem uma conexão direta com as relações pessoais, institucionais, políticas e que são bastante complexas. Acho muito oportuna esta discussão que a curadoria propõe. Este olhar reflexivo que não é só um “olhar para trás” mas para todas as direções.
Regina Melim é professora e pesquisadora na Universidade do Estado de Santa Catarina – Florianópolis, e vive em Florianópolis.