BIOGRAFIA
Mabe Bethônico nasceu em Belo Horizonte, Brasil, 1966. Vive em Belo Horizonte
2007 Encuentro Internacional de Medellín 07, Colômbia
2006 27ª Bienal de São Paulo
2005 Subversiones Diarias, Fundación Costantini/ Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires – MALBA
2003 O Colecionador, Centro Universitário MariAntonia; e Biblioteca Monteiro Lobato, São Paulo
2002 Mabe Bethônico e o Colecionador, Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte
Bibliografia Selecionada CAMPOS, Elisa; MOURA, Rodrigo & PEDROSA, Adriano, “On Mabe Bethônico e o Colecionador” IN:
Coleções/ Apropriações (cat.), Porto Alegre, Santander Cultural, 2002; LIND, Maria, “Telling Histories” IN:
Kunstverein München Newsletters, Outono, 2003 – Primavera, 2004; MOURA, Rodrigo, "Mabe Bethônico",
Flash Art International, Milão, novembro-dezembro, 2003.
ENTREVISTA
Inés Katzenstein: Antes de seu formato final – que a esta altura do processo não está ainda definido –, seu projeto para a 28ª Bienal de São Paulo consiste em pesquisa de arquivos já existentes de várias instituições relacionadas ao Parque do Ibirapuera (ou nele localizadas). Mas é importante dizer que, além deste projeto específico, os arquivos – seu formato e sua filosofia – têm estado no centro da sua obra. Em The Collector [O colecionador] (desde 1998), por exemplo, você criou um conceito de arquivo de imagens de jornal, selecionou os materiais e trabalhou como arquivista, criando categorias ficcionais para classificar as imagens como documentos históricos. O que a atrai nos arquivos? Seria a aura dos documentos históricos? Você tem interesse em criar uma linguagem artística pseudocientífica?
Mabe Bethônico: Interesso-me pelo potencial ficcional dos documentos, que desloca sua importância e os recontextualiza. Os projetos são narrativas construídas por meio de imagens e textos criados ou apropriados. Interesso-me pela busca das lacunas, das omissões, às vezes por meio do que está escondido, esquecido, focalizando comentários sobre a instituição, sua relação com o público, por exemplo, como foi o caso da 27ª Bienal de São Paulo.
Inés Katzenstein: Ao criar esse tipo de obra, você acredita que a perspectiva artística consegue traçar uma história alternativa ainda não detectada ou especulada pelas abordagens científicas?
Mabe Bethônico: Sim, mesmo quando baseada na invenção de personagens, fatos ou materiais. As obras são, em geral, especulações a partir da história e revelam a realidade ficcional ou implícita ao contar histórias. As peças exploram tensões, estórias esquecidas, na busca de diálogo com a própria instituição. Como a obra aponta para uma memória alternativa da instituição, propõe uma discussão. Portanto, um dos desafios é negociar as ações e o conteúdo dos projetos e, ao mesmo tempo, administrar as expectativas da instituição com relação à verdade. Nesse sentido, não se trata de criar uma história alternativa, mas de comentar sobre seus sintomas.
Inés Katzenstein: Você poderia explicar como o projeto Ibirapuera começou?
Mabe Bethônico: Em dado momento, chegou-me às mãos um documento de três páginas da 6ª Bienal de São Paulo, em 1961. Esse documento – sem data – refere-se à criação/fundação da União Cultural Ibirapuera.
Inés Katzenstein: Com relação a esse documento, é interessante considerar a grandiloqüência, até mesmo o tom megalomaníaco, do texto como um projeto histórico e, na verdade, datado – um tom que hoje seria impossível encontrar/realizar. Como você se relaciona com isso?
Mabe Bethônico: O documento é considerado, aqui, um fragmento sobre uma instituição ficcional. Apresenta-se como um documento autônomo, priorizando a organização das instalações culturais do parque em uma União; porém, as melhorias, as vantagens e os resultados reais não estão claros, como os objetivos ou as ações políticas, por exemplo. Há um tom formal no documento, muito embora seja uma proposta que anuncia a importância de estabelecer-se algo, sem detalhar os trâmites ou a dinâmica, o que lhe confere um potencial narrativo. A idéia de controle surge ao se ler o documento, mas o que realmente interessa é a especulação sobre uma possível confluência de campos do pensamento tão distintos.
Inés Katzenstein: Faz parte do projeto imaginar o que poderia ter sido gerado pela confluência hipotética dessas instituições? Se a resposta for positiva, como você pretende “inscrever” ou “representar” isso?
Mabe Bethônico: A confluência hipotética proposta no documento é usada como um guia geográfico, o que significa que o limite do projeto é o parque, circunscrito pelas instituições citadas no documento. Essa informação é utilizada como um ponto de partida e define o momento em que talvez tenha havido uma coletividade planejada no território do parque. A “inscrição” dos achados somente tomará forma depois das visitas aos arquivos dessas instituições; porém, mapas, murais, fotografias e até mesmo materiais do arquivo podem ser utilizados e/ou alterados.
Inés Katzenstein é crítica e curadora de arte contemporânea. Atualmente, é diretora do Departamento de Arte da Universidad Torcuato Di Tella em Buenos Aires.