BIOGRAFIA
Maurício Ianês nasceu em Santos, Brasil, 1973. Vive em São Paulo
2008 Looks Conceptual, Galeria Vermelho, São Paulo
2007 Tropical Punk, Whitechapel Gallery, Londres
2006 A Long Silence, Sequences Art Festival, Reykjavik, Islândia;
Mensageiro, Galeria Vermelho, São Paulo.
ENTREVISTA
Cristiana Tejo: A questão da comunicabilidade/incomunicabilidade é recorrente em seus trabalhos. Não à toa, este é um dos pilares que fundamentam o mundo atual. Essa discussão foi seu chamamento para a arte?
Maurício Ianês: A questão da comunicabilidade ou a falta dela sempre foi importante para o meu trabalho, pois sempre vi a criação artística como diálogo com o público, ou ao menos como uma tentativa de diálogo, por vezes frustrada, onde entram em pauta importantes jogos de poder, questões de linguagem e semiótica, questões políticas e sociais e também, talvez até acima das questões anteriormente descritas, questões pessoais, emocionais, linguagens privadas. No entanto, não considero que este tenha sido o meu “chamamento” ou “chamado” para a arte (e acho interessante o uso da palavra “chamado” por sua carga religiosa). A arte, no início, foi para mim uma maneira de me colocar quando a linguagem verbal não bastava, e então quando, mais maduro, percebi que a linguagem artística tinha também estruturas semelhantes à linguagem verbal, uma gramática própria, uma retórica da imagem, que poderia ser tão falha quanto aquela, passei a me debruçar conscientemente sobre esta questão.
Cristiana Tejo: Nos dois trabalhos propostos para a 28ª Bienal de São Paulo, o corpo ocupa papel central. Na obra Sem Título (Silence Area/Monolo-gue Area/Dialogue Area [Área do silêncio/Área do monólogo/Área do diálogo ] ), o corpo é latência, pois a demarcação de zonas de comunicação e de solidão anseia pela performatividade do outro/público. The Kindness of [A gentileza de] é um apelo ético à conservação de seu corpo, já que sua sobrevivência dependerá dos visitantes. Como você contextualiza sua obra no panorama da body art do século XXI?
Maurício Ianês: Apesar de ser inegável, de um ponto de vista, a qualidade de body art dos dois trabalhos apresentados na 28ª Bienal de São Paulo, prefiro pensá-los sob a ótica da relação do público com a arte. Meu processo de criação raramente parte de uma questão orgânica, corpórea, mas sim de um “pensar em e com o outro”. Imagino que isso amplia as possibilidades do trabalho e da arte em geral, e acho, sim, que essa seja uma questão bastante urgente no mundo contemporâneo como um todo, e a arte não pode dar as costas a isso. Tenho certa urgência pessoal em criar um compromisso com o público de “estar ali”, de “estar presente” diante de uma obra de arte, e nisso acho que a body art, na sua “imediatez”, torna-se importante para o trabalho, pois o público se confronta com o artista, o humano com o humano, sem mediação – a não ser pela mediação do contexto artístico e cultural em que as obras são apresentadas. Creio que é justamente pensando nesse ambiente não neutro e não mediado que as artes do corpo têm se desenvolvido.
Cristiana Tejo: Você tem uma dupla inscrição no mundo da cultura. Atua tanto no campo das artes plásticas como no campo da moda. Essa dupla atuação promove interfaces ou você as considera âmbitos distintos?
Maurício Ianês: Sem dúvida, o meu pensamento é muito próximo no processo de criação de ambos os campos, principalmente porque tanto em um quanto em outro o corpo e a comunicação são objetos centrais de análise (a linguagem do vestuário, a linguagem do corpo, a linguagem da arte). No entanto, abordo as duas áreas de modos bastante diferentes, já que elas têm suas especificidades. Existe, porém, uma interface forte que está ligada às técnicas usadas nos trabalhos e também a uma questão bastante proeminente do meio da moda, que é a da máscara, da fantasia, do artificialismo que ela envolve, o vestir-se para o outro, esconder-se atrás da linguagem do vestuário. Essa potência inerente ao universo da moda influenciou bastante algumas questões do meu trabalho.
Cristiana Tejo é curadora independente e diretora do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), no Recife, desde janeiro de 2007.