BIOGRAFIA
Rivane Neuenschwander nasceu em Belo Horizonte, Brasil, 1967. Vive em Belo Horizonte
2008 South London Gallery, Londres; 55th Carnegie International
2007 6ª Bienal do Mercosul
2005 51. Biennale di Venezia
2003 Superficial Resemblance, Palais de Tokyo, Paris
2002 To: From: Rivane Neuenschwander, Walker Art Center, Minneapolis, EUA
Bibliografia Selecionada MARCOCI, Roxana,
Comic Abstraction, Image-Breaking, Image-Making, Nova York, Museum of Modern Art, 2007; NEUENSCHWANDER, Rivane,
Ici lá-bas aqui acolá, São Paulo/ Belo Horizonte, 2005; NEUENSCHWANDER, Rivane,
Spell, Portikus Frankfurt Am Main, 2002.
ENTREVISTA
Cauê Alves: O que você está planejando mostrar na 28ª Bienal de São Paulo? Como você imagina que será a relação do trabalho?
Rivane Neuenschwander: O Ivo Mesquita me pediu para que mostrasse novamente o trabalho
[...], que consiste em máquinas de escrever modificadas onde os tipos com letras são substituídos por tipos com pontos. O teclado, bem como os tipos com pontuação e números, continua inalterado. Assim, sabemos o que estamos escrevendo, mas a menos que mensagens sejam “construídas” por números, vírgulas, etc., somos privados da leitura das palavras, uma vez que as mesmas são constituídas apenas por uma seqüência de pontos. Temos aqui vários níveis de comunicação, o que talvez seja interessante para a proposta da 28ª Bienal. Primeiramente, máquinas de escrever e papel são oferecidos ao público para serem usados como meio de expressão. Privados das letras, os visitantes podem optar por escrever mensagens indecifráveis (para o coletivo), mas ainda assim mensagens (para o indivíduo) ou usar do subterfúgio do desenho para a elaboração de palavras ou mesmo desenhos, restituindo, assim, o poder de uma comunicação direta e reconhecível. Posteriormente, os papéis são pregados em um painel de feltro verde, permitindo uma leitura coletiva, além de estabelecerem narrativas aleatórias, dada a proximidade das mensagens deixadas pelo público. Para a mostra “em vivo contato”, as máquinas de escrever serão colocadas em espécies de cabines/módulos individuais planejados e espalhados em uma estrutura expositiva, ambos projetados pelo Gabriel Sierra. Outro trabalho a ser apresentado são relógios de flipar também modificados, mas contrariamente às máquinas de escrever, aqui é o número que vira ponto, ou antes, círculo ou se preferir, zero. As letras indicando o dia da semana e o mês continuam inalteradas em alguns modelos. Aqui, é o tempo que não conta. Um instante é igual ao outro, que é igual ao próximo, sendo sempre diferente e distinto um do outro. O flipar do mecanismo indica a marcação de um tempo abstrato. Os relógios estarão espalhados pelo pavilhão da Bienal, bem como em lugares ligados à mostra, como restaurantes ou hotéis selecionados para hospedar artistas, curadores, etc., estendendo, desse modo, o espaço para além do tempo.
Cauê Alves: O trabalho […], que esteve na Biennale di Venezia (2005) e no Panorama da Arte Brasileira no Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM (2007), requer a participação do público. Será que o formato Bienal e a postura distante que em geral o público tem da arte contemporânea permite uma experiência participativa significativa em que o trabalho não seja consumido e descartado como um produto qualquer?
Rivane Neuenschwander: Primeiramente, são trabalhos que sugerem tempo, concentração e certa dedicação, e isso, a meu ver, traz uma densidade maior do que uma frivolidade. Acho que importa pouco na experimentação de alguns trabalhos se a visitação é pequena ou volumosa, pois ainda assim ela será uma experiência eminentemente individual. Isso, na minha opinião, se dá sobretudo pelo tempo dispensado na vivência da obra. O que faz diferença ao final é o volume de material resultante da participação do visitante e sua conseqüente implicação na leitura do coletivo. Em relação ao trabalho
[...], desenhos coletados de máquinas de escrever que retornam de uma mostra refletem o coletivo que se encontra inserido em um tempo, lugar ou contextos específicos. Assim, aqueles provenientes de Veneza, por exemplo, apontam para um público diversificado, vindo de vários lugares e não obstante nauseado pela água circundante… Outro aspecto fundamental em relação a mostras de grande porte é a absoluta necessidade de manutenção de um trabalho que está diretamente sujeito à ação do público. Sem um compromisso adequado da instituição, a obra pode perder completamente o seu propósito e se esvaziar por completo.
Cauê Alves é professor de Estética e História da Arte na Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) e da Escola da Cidade, curador do Clube de Gravura do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP) e vive em São Paulo.