BIOGRAFIA
Valeska Soares nasceu em Belo Horizonte, Brasil, 1957. Vive em Nova York
2007 The Shapes of Space, The Solomon R. Guggenheim Museum, Nova York
2006 Walk on by, Art Gallery of Hamilton, Canadá;
Seduções, Daros Latin America, Zurique
2005 51. Biennale di Venezia
2003 Follies, The Bronx Museum of the Arts, Nova York & Museo de Arte Contemporáneo de Monterrey, México
2002 Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Brasil
Bibliografia Selecionada COLLINS, Judith,
Sculptures Today, Londres, Phaidon, 2007; SOARES, Valeska; MEIRELES, Cildo & NETO, Ernesto,
Seduções, Daros – Latinamerica, Zurique, Hatje Cantz, 2006; SOARES, Valeska,
Folies/ Caprichos, The Bronx Museum of the Arts, Nova York/ Museo de Arte Contemporáneo de Monterrey, Monterrey/ Art Gallery of Hamilton, Ontario, 2006.
ENTREVISTA
Isabel Carlos: Como é que chegou a esta idéia de um tapete-capacho que parte do primeiro catálogo da Bienal de São Paulo?
Valeska Soares: A primeira idéia para a peça foi a de usar somente as letras, mas o espaço da Bienal é muito grande e exigia algo que ancorasse as letras para que não ficassem perdidas na arquitetura. Então olhando o “catálogo”/livro, começou a fazer sentido utilizar a capa como âncora, não somente espacial mas também conceitual. O desenho gráfico da capa e contracapa é representativo da época e se relaciona diretamente com as idéias que iniciaram o projeto da Bienal e a arquitetura de seu espaço. Considerei inicialmente diferentes materiais, mas no final o formato “tapete/capacho” me pareceu mais apropriado como um espaço de transição entre a zona expositiva e o arquivo da Bienal no terceiro andar. Os visitantes têm de cruzar a superfície do tapete para entrar no arquivo.
Isabel Carlos: O texto desse primeiro catálogo da Bienal diz-lhe algo de especial ou é somente uma referência factológica ou histórica?
Valeska Soares: O catálogo contém uma série de diferentes informações, há um texto do presidente da Bienal contextualizando o projeto e um do curador contextualizando a Bienal em relação à Biennale di Venezia. Além disso, tem uma quantidade enorme de dados, como as normas de participação, os países participantes, os prêmios, os valores e advertências.
Isabel Carlos: É, portanto, uma referência histórica importante?
Valeska Soares: Sim, mas de alguma maneira a idéia de sua importância é mais importante que o conteúdo. Gosto dessa idéia de que com as minhas letras posso escrever outro texto ou catálogo, ou todos podemos reusar as letras e escrever outro texto, um anagrama. Transformar o texto histórico em um texto aberto.
Isabel Carlos: Anagramas, labirintos, textos, sempre foram referências importantes na sua obra…
Valeska Soares: Sim, acho que são todos referências a caminhos, percursos, não somente físicos mas também mentais. Exercícios de representação. Este trabalho para a Bienal é também uma continuação dos meus “projetos editoriais”. Já há algum tempo venho publicando em forma de escultura alguns textos que são importantes para mim:
As cidades invisíveis, de Ítalo Calvino;
Os fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes, etc. Eu convivo muito com Ivo Mesquita e conversamos muito. Foi um prosseguimento natural da convergência do que venho fazendo e das idéias que ele tinha para o projeto da Bienal. Interessou-me a sensualidade e o fetiche do objeto catálogo que ele tem guardado no armário, o objeto livro que vem se transformando em objeto de desejo com a perda da sua funcionalidade, o ato de ler vem por meio de outras mídias.
Isabel Carlos: Mas ao escolher o texto para um exercício de representação plástica você parte desde logo de duplas significações…
Valeska Soares: Sim, são indicações para a produção de ficção, gatilhos subjetivos. Eu não acredito que isso seja possível sem a relação espacial. É uma relação quase teatral, em que o sujeito está no centro como espectador, mas é simultaneamente personagem principal.
Isabel Carlos: Você se encara como escultora para quem as palavras são a matéria escultórica?
Valeska Soares: Acho que sou uma artista que produz uma inteligência visual, as idéias dão a matéria. A palavra escultórica me parece limitadora, ainda tem de algum modo como referente os gêneros tradicionais de produção artística. A prática artística agora se relaciona mais com a filosofia, com o pensamento, mais do que com uma idéia artesanal.
Isabel Carlos: Concordo. O que estou querendo dizer é o modo como sua obra partindo de idéias, de textos e autores é, no entanto, extremamente plástica, não é uma obra seca na tradição conceitual mais dura; pelo contrário, tem algo sempre muito sensorial, como em Catálogo, que as letras poderão ser tocadas, atravessadas, viradas do avesso…
Valeska Soares: Claro, claro; meu trabalho nunca foi somente mental; ele se permite ser sensual. O que me interessa é o erotismo das idéias, o fascínio da matéria. A arte conceitual “ortodoxa” me parece muito burocrática, muito rígida, com muitas regras.
Isabel Carlos vive em Lisboa, curadora da Sharjah Biennial 9 nos Emirados Árabes Unidos.