BIOGRAFIA
Vibeke Tandberg nasceu em Oslo, Noruega, 1967. Vive em Oslo & Berlim
2008 Klosterfelde, Berlin & Gallery c/o, Berlim;
Dekonstruktionen, Hamburger Banhof - Museum für Gegenwart, Berlim;
Reality Check, Contemporary Art from the mid-90s to the present, Statens Museum for Kunst, Copenhagem, Dinamarca
2007 La parola nell´arte/ The word in art, Museo di Arte Moderna e Contemporanea di Trento e Rovereto, Itália
2005 Sprengel Museum Hannover, Alemanha
2004 Astrup Fearnley Museum of Contemporary Art, Oslo
Bibliografia Selecionada UTNE, Janeke Meyer,
Vibeke Tandberg, Lillehammer, Lillehammer Kunstmuseum/ Haugar Vestfold Kunstmuseum, 2007; UELAND, Hanne Beate,
Vibeke Tandberg, Oslo, Astrup Fearnley Museum of Contemporary Art, 2004; BANG-LARSEN, Lars & NESBITT, Rebecca Gordon,
Vibeke Tandberg, c/o, Berlim, Atle Gerhardsen, 2003.
ENTREVISTA
Ivo Mesquita: Atualmente, alguns artistas de artes visuais, em diferentes latitudes do mundo, têm utilizado a apropriação do livro como estratégia. Qual a importância dessa estratégia para a sua prática e a sua produção artísticas?
Vibeke Tandberg: Meu trabalho sempre tem um ponto de partida muito pessoal. Tudo o que faço se origina da minha relação psicológica e social com o que me cerca. No caso desta obra em particular, não diria que há uma estratégia, porque poucas obras minhas se baseiam em textos e também porque eu não a teria criado se não fossem o conteúdo existencial do romance e a situação que eu vivia no momento da criação. O conceito se subordina ao significado da obra. Mas a forma de trabalho com este livro – a desconstrução física – é um método que em geral tenho a tendência de usar. A desconstrução, para mim, é um modo de compreender o mundo.
Ivo Mesquita: Por que O estrangeiro, de Albert Camus, de 1942, um romance existencialista fundamental? Gosto muito desse livro. Li quando tinha dezessete anos e me lembro como impressionou tanto a mim como aos meus contemporâneos no final da década de 1960. Mudou para sempre minha maneira de pensar sobre a vida em geral e sobre os estilos que ela pode assumir. O livro tem algum significado especial para você?
Vibeke Tandberg: Sem dúvida senti o mesmo impacto. Desde os meus dezessete anos e até bem depois dos vinte mergulhei em Sartre e Camus. Eu me identificava muito com o existencialismo francês, e acho que os adolescentes em geral também. Alimentar a curiosidade do jovem com esses dois autores, que nos deixam sem respostas mas que dão grande importância às nossas perguntas, proporciona uma alternativa para a religião ou para qualquer outra plataforma fundamental na vida de uma pessoa. Ambos foram muito importantes para mim, pois me fizeram pensar sobre minha existência de tal forma que seria um desafio viver sem um objetivo maior. Além disso, desenvolveram uma maneira de pensar que propiciou uma releitura depois de vinte anos tentando preencher minha vida com várias atividades que tivessem significado. A releitura explicitou as razões para as escolhas que fiz desde a primeira leitura.
Ivo Mesquita: Qual seu interesse em desconstruir o livro – reduzi-lo a uma espécie de marco zero de uma narrativa?
Vibeke Tandberg: O romance é a descrição de um homem que vive totalmente alienado do seu entorno. Mas isso não o incomoda, e mesmo quando se vê diante da morte, sua relação com o fato não o afeta pessoalmente. Ele simplesmente se recusa a interpretar a própria existência, o que o torna indiferente ao que ocorre a ela. A ausência de emoções acaba por lhe custar a vida, pois a sociedade não aceita sua atitude aparentemente desprovida de moral. Vejo esse romance como uma visão muito expressiva da ausência total de significado da existência humana. Eu quis usar as mais de 32 mil palavras sobre essa visão sobre o desafio da vida e reduzi-las a um padrão sem significado. Apenas deixei as palavras ali individualmente, como pequenos objetos decorativos. E esse padrão se baseia no alfabeto, que é um sistema elaborado para organizar e conferir significado, mas que, ao transformar o texto em alfabeto, desorganiza o conteúdo e remove o significado original, tornando-o paradoxal. Para mim, foi importante a obra ter exigido um tempo bastante longo, assim como a desconstrução desses conceitos existenciais. Foi como se digerir o livro tivesse sido uma experiência física, o que eu entendo como uma analogia à vida, pois preenchemos nossa existência com significados muitas vezes extraídos de desafios, prazeres, rejeições ou realizações físicas.
Ivo Mesquita é curador da 28a Bienal de São Paulo e curador-chefe da Pinacoteca do Estado em São Paulo, onde vive e trabalha.